
Como demonstrei no artigo em que defendo comparo as palavras natural e não natural, natural é tudo aquilo que existe, e não existe o não natural. A distinção entre natural e artificial, natural e cultural, natural e humano é apenas uma classificação criada por nós para organizar a forma como interpretamos a realidade. O ser humano, sua cultura, suas instituições, suas crenças e suas tecnologias não estão fora da natureza, são fenômenos que surgiram dentro dela.
Essa constatação permite olhar para a evolução de uma maneira mais ampla. Em vez de restringir o conceito ao desenvolvimento biológico das espécies, podemos observar processos de transformação em qualquer sistema que possua elementos capazes de variar, interagir, persistir e desaparecer.
Uma espécie é um sistema. Uma cultura também. Uma religião, uma língua, uma ideologia, uma instituição ou uma tradição podem ser analisadas da mesma maneira. Em todos esses casos existem partes que interagem entre si e com um ambiente, produzindo continuamente mudanças na composição e no comportamento do sistema.
Isso não significa que todos esses fenômenos evoluam pelo mesmo mecanismo. A evolução biológica possui mecanismos específicos, como mutação, recombinação, hereditariedade etc. Ideias e comportamentos, por outro lado, são transmitidos por aprendizagem, imitação, comunicação e instituições. A analogia está em uma estrutura mais geral, existem variações, algumas persistem mais do que outras e aquilo que persiste modifica o estado futuro do sistema.
Considere uma espécie submetida a determinado ambiente. Indivíduos apresentam variações, algumas delas favorecem a sobrevivência ou reprodução em determinadas circunstâncias. Se essas características forem herdáveis, sua frequência poderá aumentar nas gerações seguintes. Não existe, nesse processo, uma intenção de produzir um organismo melhor. Existe apenas uma diferença na capacidade de determinadas características persistirem.
O mesmo princípio geral pode ser observado em sistemas culturais. Uma ideia que é mais facilmente memorizada, transmitida ou reproduzida pode tornar-se mais comum do que outra. Uma religião que possui mecanismos eficientes de transmissão pode expandir-se, uma tradição que deixa de ser transmitida pode desaparecer e uma ideologia que consegue mobilizar pessoas pode sobreviver e reproduzir-se enquanto outra perde influência.
Nesse sentido, podemos falar em seleção natural sem afirmar que uma cultura seja biologicamente superior a outra. O que está sendo selecionado não é necessariamente um organismo, mas determinadas características que conseguem persistir nas circunstâncias que o ambiente impõe.
Uma língua oferece um exemplo particularmente claro. Palavras surgem, desaparecem, mudam de significado e competem com outras formas de expressão. Algumas se espalham porque são mais convenientes, outras porque são impostas por instituições, outras simplesmente porque determinados grupos possuem maior influência. Depois de muitas gerações, a língua resultante pode ser radicalmente diferente daquela que existia anteriormente.
Não houve um planejador responsável por conduzir essa transformação. A língua simplesmente respondeu às incontáveis interações entre seus usuários e o ambiente social em que estava inserida.
O mesmo pode ocorrer com religiões. Crenças não permanecem necessariamente porque são verdadeiras ou falsas, mas porque diferentes mecanismos podem favorecer ou dificultar sua transmissão. Uma doutrina pode ser reforçada pela educação familiar, por instituições, por recompensas sociais, por punições, pela autoridade de seus líderes ou pela capacidade de oferecer explicações emocionalmente satisfatórias.
Isso não determina antecipadamente quais crenças sobreviverão. O ambiente muda, as pessoas mudam e as próprias crenças sofrem modificações durante sua transmissão. Uma religião pode se adaptar às circunstâncias, dividir-se em diferentes vertentes ou desaparecer.
Ideologias políticas também podem ser observadas sob essa perspectiva. Elas competem por atenção, adesão e transmissão. Algumas ideias encontram condições favoráveis para se espalhar, outras permanecem restritas a pequenos grupos. Guerras, crises econômicas, mudanças tecnológicas, transformações demográficas e alterações culturais modificam constantemente o ambiente no qual essas ideias existem.
Isso também ajuda a abandonar uma interpretação equivocada da evolução, que é a ideia de que evoluir significa necessariamente melhorar. Uma espécie não evolui porque possui um destino biológico que a conduz à perfeição. Uma característica torna-se mais frequente porque, em determinadas circunstâncias, seus portadores conseguiram deixar mais descendentes. Se o ambiente mudar, a mesma característica poderá deixar de ser vantajosa.
O mesmo vale para sistemas culturais. Uma ideia pode ser extremamente eficiente para sobreviver e reproduzir-se sem ser moralmente desejável, racional ou verdadeira. Sua persistência demonstra apenas sua capacidade de persistir no ambiente, nada além disso.
Uma mentira pode sobreviver porque é fácil de transmitir. Uma instituição pode permanecer porque beneficia aqueles que controlam seus recursos. Uma tradição pode persistir porque é ensinada desde a infância. Uma ideologia pode expandir-se porque oferece uma narrativa emocionalmente poderosa. Nenhuma dessas características exige que o sistema seja "melhor".
Aqui aparece também uma diferença fundamental entre evolução e progresso. Progresso pressupõe um critério de valor, algo precisa estar avançando em direção a um estado considerado superior. Evolução, por outro lado, não precisa de finalidade alguma. Ela descreve uma transformação ao longo do tempo apenas.
O que existe é transformação. E essa transformação não ocorre isoladamente. Todo sistema está inserido em algum ambiente e é constantemente afetado por ele. Ao mesmo tempo, suas próprias partes modificam o ambiente, produzindo novas condições para sua existência. Há, portanto, um processo contínuo de interação, em que o sistema responde ao ambiente, modifica o ambiente e, então, responde novamente às novas condições que ajudou a produzir.
Uma espécie modifica seu ambiente e passa a sofrer as consequências dessas modificações. Seres humanos fazem isso em uma escala ainda maior. Criamos cidades, tecnologias, instituições, mercados e sistemas de comunicação que transformam profundamente as condições nas quais vivemos. Essas novas condições, por sua vez, alteram nossos comportamentos e pressionam nossas instituições e culturas a se modificarem novamente.
Não há necessidade de introduzir um propósito externo nesse processo. Não precisamos supor que uma espécie esteja "tentando" tornar-se melhor, que uma cultura esteja destinada a alcançar determinado estágio ou que uma ideologia esteja caminhando inevitavelmente para sua forma definitiva. Basta observar as interações que produzem sua transformação.
Nesse sentido, podemos observar evolução em tudo aquilo que possui continuidade temporal e capacidade de transformação. Espécies, línguas, culturas, religiões, instituições e ideologias são diferentes sistemas, mas todos existem dentro da mesma realidade natural. Não existe um mundo natural de um lado e um mundo humano do outro. Existe apenas a realidade, constituída por sistemas que interagem, se modificam e, em determinadas condições, persistem ou desaparecem.
A natureza não produz apenas organismos. Produz também organismos capazes de produzir ideias, linguagens, instituições e culturas. E essas criações, uma vez existentes, passam a participar novamente do processo, isto é, interagem com seus criadores, competem entre si, modificam o ambiente e sofrem novas pressões seletivas.
Não há, portanto, um limite absoluto entre natureza e aquilo que produzimos. A própria distinção é uma criação humana. Tudo o que existe está dentro da natureza, e tudo aquilo que está dentro da natureza está sujeito, de alguma maneira, às consequências das interações que determinam sua permanência ou transformação.