Ser e Representar

Digital art by Anonymous

O comportamento humano tem um caráter teatral, aprendemos a adaptar nossa conduta às circunstâncias, às expectativas alheias e ao papel que ocupamos em cada ambiente.

Não nos comportamos da mesma maneira diante de um amigo, de um desconhecido, de um chefe, de um aluno, de um juiz ou de um policial. Medimos as palavras, controlamos os gestos, alteramos o tom de voz e adotamos comportamentos que consideramos adequados a cada situação. A mesma pessoa pode parecer muito diferente dependendo do contexto em que se encontra.

Isso acontece porque cada ambiente estabelece expectativas próprias. Uma piada tolerada entre amigos pode ser inadequada em uma sala de aula, uma linguagem esperada em um bar pode ser imprópria em um tribunal. Aprendemos essas fronteiras e ajustamos nossa conduta a elas, em parte porque dependemos da aprovação dos outros e tememos a crítica, a rejeição e a exclusão. Com frequência, agimos não apenas de acordo com o que desejamos, mas também com aquilo que percebemos ser esperado de nós.

A sociedade, além disso, atribui determinados valores às posições que ocupamos. Um juiz deve demonstrar imparcialidade. Por isso, controla a linguagem, a postura e as decisões, já que ocupa uma função cuja legitimidade depende dessa expectativa. Isso, porém, não elimina sua subjetividade, sob a toga, continuam existindo preferências, emoções, experiências e preconceitos. Uma função pode exigir neutralidade, mas não é capaz de tornar neutra a subjetividade da pessoa que a exerce.

O mesmo vale para um policial. Ao vestir a farda, ele assume um papel social associado à disciplina, ao autocontrole e ao respeito à lei. A farda não apenas identifica uma profissão para os demais, ela comunica que certos comportamentos devem ser esperados daquela pessoa, e essa expectativa, como ocorre por via de regra, é transformada em uma conclusão sobre sua personalidade inteira - isto é, espera-se que, na vida privada, o policial seja tão disciplinado e moral quanto deve ser no exercício da função.

Mas não existe uma essência completamente separada do contexto. O policial continua sendo uma pessoa quando retira a farda, o professor, quando sai da sala de aula, o padre, quando deixa a igreja, o político, quando está longe das câmeras. Todos possuem comportamentos que não correspondem aos ideais associados aos papéis que desempenham.

Não possuímos, portanto, um único repertório de comportamentos manifestado de maneira uniforme em todos os ambientes. Ativamos disposições diferentes conforme a situação. Isso não significa que toda moralidade seja falsa ou que toda conduta seja uma manipulação deliberada, e sim que que o comportamento humano é profundamente contextual.

A sociedade funciona, em grande medida, porque somos capazes de representar papéis e ajustar minimamente nossa conduta. Esperamos que determinadas pessoas ajam de determinadas maneiras porque isso torna suas funções previsíveis. Em um hospital, por exemplo, esperamos que um "médico se comporte como médico", em um tribunal, que um juiz siga procedimentos compatíveis com sua função.

Precisamos, contudo, evitar a confusão entre o papel e a pessoa. Uma farda não produz honestidade. Uma toga não produz imparcialidade. Um diploma não produz sabedoria. Um cargo político não produz virtude. Um hábito religioso não elimina os desejos humanos. Esses símbolos representam expectativas sociais e podem orientar a conduta, mas não transformam a estrutura subjetiva de quem os utiliza.

Por isso, não espero conhecer alguém apenas a partir do que essa pessoa demonstra em determinado contexto. Sua profissão, sua postura diante de mim e o papel que ocupa dizem muito sobre seu comportamento naquela situação, mas pouco sobre sua vida fora dela. Não conheço seus pensamentos, suas intenções, o que faz na minha ausência ou como age quando as circunstâncias deixam de exigir aquilo que demonstra diante de mim.

Meus colegas de trabalho são um exemplo disso. Conheço deles apenas o que me mostram, em grande parte dentro dos limites de um ambiente marcado por regras, hierarquia e expectativas específicas. O modo como alguém se comporta comigo no trabalho revela como essa pessoa age naquele contexto e não permite concluir, por si só, como ela se comporta na vida privada. Mesmo anos de convivência podem revelar apenas uma pequena parcela de alguém.

A transformação de figuras públicas em ídolos também faz parte desta tendência indutiva da avaliação que se faz dos outros. Admirar o talento de um artista ou de um atleta é uma coisa. Concluir, a partir do que alguém diz diante de um microfone ou de uma câmera, que essa pessoa é admirável em todos os aspectos é outra. Vemos apenas uma fração de seu comportamento, quase sempre condicionada ao contexto em que se apresenta. Se muitas vezes não compreendemos completamente nossas próprias contradições, é ainda mais ingênuo acreditar que conhecemos profundamente alguém com quem nunca convivemos.

Somos, ao mesmo tempo, espectadores e atores. Observamos os outros, julgamos suas performances e esperamos que correspondam aos papéis que ocupam. Eles fazem o mesmo conosco. O que vemos é apenas aquilo que alguém demonstra, consciente ou inconscientemente, em determinadas circunstâncias. O restante permanece fora do nosso alcance.

Não há, portanto, uma separação nítida entre ser e representar. Representamos porque somos seres sociais, porque dependemos uns dos outros e porque cada ambiente impõe expectativas diferentes. Por trás de cada farda, toga, diploma, hábito ou cargo continua existindo um ser humano contraditório e mutável, alguém que, como nós, adapta a própria conduta às circunstâncias e que jamais pode ser conhecido por completo a partir de uma única performance.